segunda-feira, 11 de abril de 2011

CENA EM FAMILIA

O pai chega
O filho sai
e o Divino Espirito Santo serve o jantar
com um sorriso forçado nos olhos

(Poema publicado em DESCOMPASSO,1974)

GEOMETRIA

Sou tão
           só
quanto
           hipotenusa
           oblíqua
           enorme
cercada de catetos por todos os lados

(Poema em DESCOMPASSO,1977)

VÉSPERA


Faz um ano
se é que faz
desfaz-se um sonho
desmarca o tempo
Faz um ano
 se é que faz

A espera na amarra
o grito
o riso solto
o criar com as mãos
e com os pés
e com os olhos
           a fala
           o gesto
o criar criando
o criar criança
no se espalhar
de um ano
no gargalhar de um tempo
A esperança na amarra

Faz um ano
se é que faz
O corre-corre
o volta sempre
a falta do carro
a farsa no palco
e riso
e ânsia
e esse sufuco imenso
preso sempre e sempre
e sempre na garganta

Os amigos dispersos
diversos
numa só mão
no empurrar da aflição

Passa folha
          risco
          letra
inverte
investe

A festa na sala de estar
no palco
na mente
no corpo
A vida voava num dia
passava o momento
             o minuto
             o segundo
ninguém via

Faz um ano
se é que faz
a esperança feita de farra
um ano
se é faz

O gesto agora é pequeno
O mundo agora é pequeno
A vida agora é
não sei
A esperança é feita de farra
se é que se faz

(Poema publicado em DESCOMPASSO, relembrando a preparação do livro CORAÇÕES TROPICAIS)

MEU POEMA

Ñão é poema de amor
ou de tédio
nem mesmo poema de dor
é muito mais poema remédio
fragmento de cor
Sem pé nem cabeça
de braços atados
poema menino
um nada de estória
coitado
Não é feito de rimas ou gestos
fatos ou coisas
é um poema modesto
Uma estranha recordação
Um descuido do olhar
Um momento
ou talvez
simplesmente
um resto de expiração.

(Poema publicado em DESCOMPASSO, 1976)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ENGRENAGEM


No rumo
Na rima
No ranço
Traço o poema troça
Tranco o riso
Trinco o lábio
Lacro o amargo
          a saudade

No rumo de cada estória
faço a trama da razão
Risco
Rasgo
Canso
faço o drama
       o cantochão

Na rima de cada canto
canto mais alto que posso
Grito
Torço
Vingo
Mando
Em resposta o contracanto
                    o contratempo
                    a contramão

No ranço de esperança vaga
Limo o susto
Lixo o medo
Solto o verbo
Seco no peito a palavra
Murcho o que há de extremo
Marco o que não foi falado
E em resposta o degredo
o troco um desagrado
o pranto como desculpa
a vida como culpada

(31/8/78- Eu tinha acabado de fazer 21 anos.E ainda eram anos de chumbo.)

(Poema publicado em DESCOMPASSO, ed. Cátedra, 1979)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

SEGUNDA-FEIRA





Segunda-feira
dia da graça
dia de graça
dia desgraça

Segunda-feira
(que nem feira tem)

Foge
num pulo
o domingo
o riso
o cheiro de mar
e mormaço

Segunda-feira
cheiro de aço
e fumaça
e cansaço

Segunda-feira
(que nem feira tem)

Tem só trabalho
sem canto
com ponto
sem tempo
com hora marcada
pra nada

Segunda-feira
(que nem feira tem)

Dia da graça
dia de graça
dia desgraça
segunda-feira
molenga

Despe teu sono moleque
o dia chegou

Dia da farsa
comparsa
da dor
do cansaço
do medo

Segunda-feira
(que nem feira tem)

Despe teu riso menino
o dia chegou
de manso
de chofre
na base do empurra

Deixa de lado
toda a festa
o batuque
a seresta
despe teu cheiro malandro
de chopp gelado
o dia chegou

Segunda-feira
(que nem feira tem)

Tem
só a fome
sem pauta
com sede
sem falta
com hora marcada
pra se esconder

Segunda-feira
(que nem feira tem)

Despe teu nome Seu moço
põe tua senha no bolso
e corre
é amanhecer

(1977- Eu tinha 20 anos e começava a trabalhar!!!!!)

(Poema publicado em DESCOMPASSO, Ed. Cátedra, 1979)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

E DEUS CRIOU O HOMEM E A MULHER



















Um dia
não faz muito tempo
quando tudo a volta era solidão
Deus
(como quem não quer nada)
redigiu o homem
e
a mulher
num pedaço de folha
pautada

O homem foi descrito
em decassílabos sáficos e heróicos
e a mulher em versos brancos

E entre metáforas e antíteses
começaram a surgir
(como se saíssem do barro!)
duas figuras iguais e distintas
que sem compromisso se amavam

Eram dois poemas
sozinhos
perdidos e desconcertados
entre as estantes vazias
de uma biblioteca
antiquada

E por não serem folheados
por ninguém
folhearam um ao outro
e por não serem consumidos
por ninguém
consumiram um ao outro

Se interpretaram
por muito tempo
(meio tímidos)
(meio tontos)
decoraram trechos
leram em voz alta
parágrafos inteiros

Foram se resumindo
se interligando
de tal forma
que deixaram de ser dois
e viraram um só
soneto

(1975 - Aos 17 anos, o amor pode ser azul!)


(Poema publicado em DESCOMPASSO, ed. Cátedra,1979)